Romance Histórico

Thriller

Policial

Fantástico

Literatura Portuguesa

Literatura Feminina

Não-ficção

Política

Séries

 

As Duas Faces da Lua

David Scott & Alexei Leonov

 

Género: Não-ficção

Livro recomendado pela The Planetary Society  

 

PVP: € 17.50

 

Disponível a 24 de Setembro

Pré-reserva (10% desconto / portes gratuitos)

Pré-publicação

Este livro dá uma perspectiva muito especial sobre dois heróis gigantes que estavam em lados opostos, tanto na Terra como na Guerra Fria, mas cujas conquistas na criação da era espacial os une. É necessário compreender a inspiração e o legado dos voos espaciais para planearmos o próximo passo da humanidade.

Louis Friedman, Director Executivo da The Planetary Society

                                           

Prefácio

Em “As Duas Faces da Lua”, David Scott e Alexei Leonov recontam a preparação e a realização da competição não-militar mais elaborada da História. Ambos viriam a desempenhar um papel vital e de grande destaque neste desafio. Como em todas as grandes competições, o sucesso depende de uma combinação de perícia, preparação e alguma sorte. Certamente todos estes factores foram decisivos para ambas as partes. O leitor irá recolher visões pormenorizadas de estratégias, êxitos, preocupações e tragédias de cada equipa. É muito pouco provável que a corrida espacial fosse o desvio das atenções que evitava a guerra. Contudo, continuava a ser uma diversão que constituía um escape que substituiu a política de intimidação do início da década de 50 e que poderia ter levado ao conflito armado. A disputa era intensa e favoreceu uma via mais nobre, tendo como objectivos a ciência e o conhecimento. Eventualmente, possibilitou um mecanismo que viria a fomentar a cooperação entre rivais, proporcionando um legado duradouro – um enorme avanço na compreensão da nossa vizinhança cósmica e, naturalmente, da própria Terra.

De uma forma geral, acredita-se que a era espacial teve início devido à Guerra Fria entre o Ocidente, encabeçado pelos Estados Unidos, e pelo Bloco de Leste, liderado pela União Soviética. Esta crença não corresponde inteiramente à verdade. Na realidade, a era espacial começou devido a um evento científico conhecido como o “Ano Internacional da Geofísica”. Sessenta e seis países reuniram-se para analisar o planeta Terra e respectivos subúrbios: oceanografia, meteorologia, actividade solar, os campos magnéticos da Terra, a atmosfera superior, os raios cósmicos e meteoros. O Ano Internacional da Geofísica foi planeado entre 01 de Julho de 1957 e 31 de Dezembro de 1958. Na verdade, foi o Ano Internacional da Geofísica e Meio. Foi escolhido este período, porque coincidiu com a actividade máxima de manchas solares. Todos os tipos de fenómenos eléctricos, magnéticos e meteorológicos pareciam estar relacionados de algum modo com manchas solares.

Os cientistas soviéticos e americanos reconheceram que, se fosse possível colocar um objecto feito pelo homem em órbita, à volta da Terra, seria a plataforma perfeita para sensores e instrumentos de medição mensurarem as características do mundo natural para o qual foi criado o Ano Internacional da Geofísica.

Não se aperceberam então que estavam a inaugurar um novo desafio que viria a ser conhecido como a “corrida espacial”. Os soviéticos partiram em ligeira vantagem com o lançamento bem sucedido do primeiro satélite em órbita da Terra, o Sputnik. Aumentaram a sua vantagem com uma série de “primeiros”: foram os primeiros a pôr um ser vivo – um cão – em órbita; os primeiros a pôr um homem no espaço; primeiros a terem uma pessoa a sair de uma nave espacial; os primeiros a pôr uma mulher em órbita; os primeiros a lançar uma nave espacial com uma tripulação e os primeiros a fazer voar sondas não tripuladas à Lua, Vénus e Marte.

O programa norte-americano ficou substancialmente para trás, mas não estava moribundo. Os americanos ficaram embaraçados, mas desejavam avidamente fazer parte da corrida e estavam determinados a obter êxito. O presidente dos EUA, John F. Kennedy, pediu à National Aeronautics and Space Administration para fornecer um relatório sobre a sua capacidade para competir com os soviéticos. Os oficiais da NASA disseram ao Presidente que os Estados Unidos não podiam fornecer o primeiro laboratório espacial e tinham apenas uma ténue hipótese em serem os primeiros a voar à volta da Lua.

Ainda que isto fosse uma arena sobre a qual ele pouco sabia, Kennedy concluiu que os Estados Unidos deveriam entrar na corrida e apresentar um bom desempenho. Recebeu o apoio do Congresso e do povo americano. A corrida tinha começado.

Este livro é a história dessa corrida nas versões de dois dos seus principais intervenientes em competição. Cada um dos lados respeitava o outro. Efectivamente, eles podiam compreender, talvez melhor do que ninguém, os problemas, desafios e riscos. Em raras ocasiões, os concorrentes participaram em eventos internacionais e conferências de âmbito técnico durante breves períodos e simpatizavam entre si, ainda que, estando em lados opostos da barricada, não sabiam se podiam confiar na outra parte.

As Duas Faces da Lua intercala a táctica do programa soviético e o esforço norte-americano. O leitor irá conhecer os planos desenvolvidos nos centros de treino e de operações em Moscovo e em Houston e irá viver com os cosmonautas e astronautas nas respectivas naves espaciais, à medida que aprendem a viver e a sobreviver no espaço perigoso e hostil.

Dave Scott e Alexei Leonov assumiram a enorme responsabilidade de comandar a nave espacial e de representar os respectivos países na mais fascinante e dispendiosa corrida da história humana. Este é o relato sublime dessa competição.

                                                                                                                              Neil Armstrong, 2004

INTRODUÇÃO

Com o desenrolar de um ou dois eventos históricos, o cosmonauta soviético Alexei Leonov podia ter passado as décadas de 60 e 70 a tentar suprimir o astronauta norte-americano David Scott e vice-versa. Leonov no seu MiG e Scott no seu Super Sabre podiam ter combatido um contra o outro nos céus, numa luta entre as duas nações mais fortes do planeta para obter os domínios político, militar e sociológico.

Leonov e Scott eram pilotos com experiência e conhecimentos elevados, munidos com as mais avançadas armas de combate aéreo. Cada um deles acreditava que o seu país natal possuía a melhor qualidade de vida e a melhor estrutura social possível. Cada um era um militar de carreira, motivado, temerário e com orgulho em ser o primeiro, o melhor ou, pelo menos, o mais multifacetado. Felizmente para eles - e para o resto da humanidade -, a sucessão de acontecimentos nunca deu origem a um embate que seria (seguramente) mortífero para um dos lados.

Em vez disso, os russos e os americanos levantaram voo para pontos separados, bastante mais elevados. Com um coração de artista, Leonov tornou-se num verdadeiro cosmonauta; o primeiro ser humano a flutuar no espaço – o único homem, na altura, capaz de ver o seu amado planeta e a Mãe Rússia através da fina viseira do seu fato pressurizado. Scott, o engenheiro/sonhador, comandou a primeira missão lunar onde a exploração obrigou a algo mais do que alunar, caminhar e recolher rochas. Ele conduziu um veículo na superfície da Lua, dia após dia, à procura de um tesouro geológico que fosse tão valioso para a ciência como a arca da aliança seria para os teólogos.

Estes dois homens enganaram a morte centenas de vezes durante toda a vida. Desde a sua infância, durante o período mais frio da história soviética, passando pelo início da sua carreira como piloto, até ao treino rigoroso e extremo para se tornar num cosmonauta, Leonov poderia ter desaparecido pelos motivos mais diversos. Um perfil aerodinâmico mal construído, uma válvula avariada, um cálculo incorrecto na pressão do seu fato espacial ou até um momento de hesitação podiam ter ditado o seu fim. David Scott, com milhares de horas em aviões com ou sem a segurança testada, por pouco não escapava da morte quando a Gemini 8 ficou instável após o lançamento. Uma alunagem precisa podia ter se tornado na receita para o desastre – na verdade, assim o é -, mas Scott sobreviveu de forma colorida. Ambos podiam ter desaparecido em enormes bolas de fogo, resultado da explosão dos foguetes na plataforma de lançamento, quer no Cosmódromo de Baikonur, na URSS, ou no Cabo Kennedy, EUA, sem que nenhum tivesse tido ainda a oportunidade de ganhar o título de cosmo - ou astronauta.

Mas, uma vez mais, nenhum destes cenários se concretizou e ambos fizeram o que os pilotos têm vindo a fazer desde que Montgolfier subiu aos céus num balão. Enganaram a morte. Aceitaram entrar voluntariamente num jogo, concentrados na missão e em dar por concluído o trabalho. Às vezes, conseguiam o primeiro lugar. Muitas das vezes, eram os melhores. Foram sempre brilhantes.

Uma das crenças mais comuns sobre os indivíduos que partem para o espaço, particularmente aqueles homens que participaram na grande corrida espacial entre EUA e URSS, era que não passavam de autómatos – um jockey com um corte à escovinha, cérebros como uma régua de cálculo e um vocabulário de superlativos ininteligíveis e afirmativos “A-OK”. Como todas as generalizações, isto estava longe de ser verdade. É verdade que para voar aviões, deve partilhar-se certos interesses com outros pilotos, mas ganhar o direito e a responsabilidade de caminhar no espaço e sobre a superfície da Lua requer uma determinação individual espectacular. Não basta apenas querer fazê-lo por motivos inexplicáveis – as coisas devem ser feitas com uma perícia inexplicável.

Leonov e Scott tiveram de ir mais além para explicar o inexplicável em “As Duas Faces da Lua”.  E ainda bem que o fizeram. Os segredos do programa especial soviético são finalmente descritos por Leonov, e adivinhem… O homem do espaço comunista que deveríamos todos temer levou lápis de cor para o espaço – apenas para captar melhor as cores de um nascer do sol orbital. E quanto aos americanos que saltavam na lua com tamanha facilidade? Duas horas para vestir os respectivos fatos e por pouco não conseguiram pôr os pés em solo lunar.

No espaço, nada é rotineiro e nada do que se passou nas missões de Alexei Leonov e David Scott pode ser considerado rotineiro. Cada segundo de cada uma das cinco missões foi único, belo, recompensador e perigosamente volátil. E, no entanto, sempre que regressavam, nenhum dos dois afirmou ter voltado como um homem mudado que fora para o espaço e vira…o espírito do universo.

Não. Foi ainda melhor. Voltaram das suas missões espaciais, viram o seu próprio espírito enquanto seres humanos que eram antes de deixar o nosso mundo de ar, terra e água para ver a Terra ou um “nascer da Terra” nos “céus” da Lua. Nunca deixaram de ser assim: Leonov, o artista; Scott, o engenheiro/sonhador; os dois: os Ilusionistas da Morte.

                                                                                                                             Tom Hanks, 2004

A Terra é o berço da mente, mas ninguém pode viver nesse berço para sempre -- Konstantin Tsiolkovsky, 1857 – 1935, o pai da viagem espacial russa

O Homem deve erguer-se da Terra – até ao cimo da atmosfera e mais além – só então irá compreender inteiramente o mundo em que vive. -- Sócrates, 469 – 399 AC

PRÓLOGO

Major Alexei Arkhipovich Leonov, Força Aérea Soviética

Piloto, nave espacial Voskhod 2

LANÇAMENTO: COSMÓDROMO BAIKONUR

REPÚBLICA SOVIÉTICA DO CAZAQUISTÃO, 18 DE MARÇO DE 1965;

MANHÃ FRIA COM LIGEIRA QUEDA DE NEVE

 

O silêncio do espaço foi quebrado apenas pelos sons do bater do meu coração e da minha respiração abafados pelos auscultadores dentro do meu capacete. Suspenso a 500 quilómetros acima da superfície da Terra, estava preso por um cordão umbilical de cabos até à nossa nave espacial, Voskhod 2 que orbitava a Terra a 30 000 km/h. Contudo, sentia como se estivesse imóvel, a flutuar acima de uma vasta esfera azul manchada por um mapa colorido. Ergui a cabeça. Podia ver a curvatura do horizonte da Terra.

“Então o mundo é mesmo redondo”, disse serenamente para comigo, como se as palavras viessem de algures da minha alma. Por alguns instantes, senti-me completamente só neste pristino e novo ambiente, extraindo a beleza do panorama abaixo de mim com um olho de artista.

Então uma voz encheu o vazio: “Atenção. Atenção.” Era o meu comandante, Pavel Belyayev, dirigindo-se a mim e, dir-se-ia, ao resto da humanidade. “A vossa atenção, por favor”, disse Pasha, num tom muito sério. “Um ser humano realizou a sua primeira caminhada em espaço aberto. Neste momento, ele está a voar no espaço.” Demorei algum tempo a perceber que estava a falar de mim.

Outra voz irrompeu logo de seguida. “Como é que te sentes, Lyosha?” Esta voz parecia-me familiar também. Mas não a reconhecera de imediato até a voz continuar e foi então que me apercebi que pertencia a Leonid Brezhnev. Estava tão surpreendido quanto extasiado, ele estava a falar mesmo para mim. Ninguém me informara que eu iria receber uma transmissão do Kremlin, ainda que tivesse consciência que este momento era muito importante sob o ponto de vista político. A minha missão – os primeiros passos do homem no espaço aberto – assinalou outro triunfo da União Soviética, depois do meu bom amigo Yuri Gagarin ter sido o primeiro homem no espaço quatro anos antes.

Viria a saber mais tarde que tinham sido montados monitores especiais no Kremlin para que os líderes mais importantes do Partido Comunista pudessem seguir o nosso voo espacial através de uma ligação directa com os centros de Controlo de Missão em Moscovo e na Crimeia. A comunicação de Brezhnev a mim foi transmitida quase em simultâneo na rádio e na televisão estatais em toda a União Soviética. Tal como a minha resposta, ainda que, na altura, mal sabia o que responder.

“Obrigado. Sinto-me perfeito. Vou fazer o meu melhor para terminar a minha missão. Vemo-nos quando aterrar”, foi tudo o que consegui dizer. Era necessário uma troca de informações, porque tinha trabalho a fazer, mas estava a revelar-se mais difícil do que esperava. Durante o tempo em que fiquei a flutuar livremente, fora da aeronave, estive virado contra o sol. A intensidade da luz era enorme e a força do calor era incrível. Senti gotas de suor a acumularem-se na minha face e a escorrer para debaixo da gola da minha camisola.

O meu fato pressurizado era extremamente rígido e tive me esforçar imenso para dobrar os braços e as pernas contra a borracha insuflada. Não havia gravidade para me impulsionar no vácuo. Até o movimento mais pequeno requeria um esforço extremo. Não estava programado que eu permanecesse tanto tempo fora da nave. Era tão grande a minha preocupação em relação ao elevadíssimo limite psicológico que o homem poderia enfrentar no vazio do espaço aberto que eu tinha uma rede de sensores presos ao corpo. Informações sobre a minha pulsação, pressão sanguínea e até as ondas alfa-rítmicas do meu cérebro estavam a ser constantemente monitorizadas pelo Pasha a bordo da nave e pelo Controlo da Missão.

Contudo, antes de abandonar a minha posição como primeira pessoa a andar neste novo domínio, quis ser mais aventureiro. Dei um forte impulso para me afastar da nave espacial e comecei de imediato a rodopiar sem controlo. Se não fosse o meu cordão umbilical de cabos, teria vagueado pelo espaço fora. Antes de ter sido retido de forma abrupta, tive de me esforçar para regressar à nave, punho a punho ao longo do cordão.

Quando avancei em direcção à Vokshod 2, a temperatura do meu corpo tinha subido ainda mais e estava extremamente cansado. Sabia que tinha de reentrar na nave espacial. Estive em espaço aberto durante mais de dez minutos. Ainda tinha quarenta minutos de oxigénio na minha mochila do sistema de suporte vital  autónomo e desejava ardentemente permanecer no exterior por muito mais tempo. Mas sabia que não podia correr esse risco. Para além de significar um desobedecimento, nos próximos cinco minutos, a nossa órbita iria levar-nos para longe do sol e em direcção à escuridão. Ainda tinha de me concentrar no meu regresso à nave através da escotilha de ar, um estreito e dobrável conjunto de cilindros interligados de lona coberta de borracha, que, só por si, já era bastante difícil sem a limitação de trabalhar no escuro.

Mas, à medida que me aproximava lentamente da entrada da escotilha de ar, apercebi-me de que tinha um sério problema. O meu fato tinha insuflado no vácuo de tal forma que os meus pés tinham sido puxados das minhas botas e os meus dedos já não chegavam às luvas presas às mangas. Nenhum engenheiro tinha previsto isto; o fato tinha sido testado numa câmara de pressão que simulava uma altitude bem mais inferior em que não ocorrera qualquer deformação. Agora o fato estava tão deformado que seria impossível entrar na escotilha de ar com os pés primeiro, como tinha treinado. Não, não era possível. Tinha de encontrar outra forma de entrar na nave, e rápido.

A única forma que parecia possível era comprimindo primeiro a cabeça na escotilha. Para o conseguir, teria de reduzir o tamanho do meu fato espacial, reduzindo o oxigénio de alta pressão, através de uma válvula incorporada no revestimento, o que me iria expor ao risco de falta de oxigénio. Se consultasse o Controlo da Missão, sabia que iria alarmá-los e, seja como for, não haveria tempo a perder com discussões. Eu era o único que poderia resolver o problema, e não havia tempo a perder.

Reentrar na nave assim também significava que teria de executar um salto mortal quando estivesse no interior da escotilha para poder fechar o fecho exterior. Tudo isto iria implicar mais tempo do que estava previsto, e não tinha a certeza se o sistema de suporte vital iria durar. O êxtase que tinha sentido há alguns minutos apenas enquanto contemplava a Terra tinha evaporado. Ensopado em suor no fato insuflado e com o meu coração a bater disparado, sabia que não podia entrar em pânico. Mas já não havia muito tempo…

 

Major David Randolph Scott, Força Aérea dos Estados Unidos

Piloto, Nave espacial Gemini 8

LANÇAMENTO: CABO KENNEDY, FLÓRIDA, 16 DE MARÇO DE 1966

CÉU LIMPO

A noite estava quase a chegar. A noite iria durar quarenta e cinco minutos enquanto orbitávamos a Terra a uma velocidade vinte vezes superior à do som. Era o quinto pôr-do-sol desde o início da nossa missão a bordo da Gemini 8, e durante o período de escuridão que se seguia, iríamos ter um ténue sentido de movimentação no mar tranquilo do espaço.

Durante o nascer do último e curto dia, eu sentira um claro sentido de movimentação enquanto espreitava por uma das duas pequenas janelas da nossa nave espacial e assistia ao efeito espectacular do “air glow” causado pelo brilho da luz do sol misturado com a humidade da atmosfera terrestre. Enquanto o sol subia atrás do horizonte da Terra, a ampla curvatura do nosso planeta adquiriu uma orla de azul claro, depois púrpura, vermelho e laranja – antes das tonalidades espectaculares terem ficado brancas enquanto o sol emergia como uma esfera brilhante.

Mas agora, enquanto a trajectória do nosso voo nos levava da costa este de África para o Oceano Índico, os contornos da Terra lá em baixo desapareciam com a luz ténue. Foi então que o primeiro sinal de problemas foi transmitido à nossa equipa a partir do Controlo da Missão, através da estação de Tananarieve, na ilha de Madagáscar.

“Se tiverem problemas e o Agena ficar instável, enviem um comando 400 para o desactivar e assumam o controlo da nave. Escuto.”

Eu e o meu comandante, Neil Armstrong, trocámos um olhar cauteloso, mas não dissemos nada um ao outro. Tínhamos passado tanto tempo juntos nos sete meses desde que fomos escolhidos para esta missão que podíamos comunicar sem trocar muitas palavras. Pode dizer-se que podíamos ler a mente do outro, tal como os jogadores profissionais de basquetebol quando fazem um “passe sem olhar”, porque o companheiro sabe exactamente onde o outro vai estar.

Ambos sabíamos que havia algo de errado com o rocket Agena, com o qual só tínhamos realizado um único rendez-vous e ancoragem no espaço. O Agena, que estava agora preso à parte frontal da nave, tinha uma história complicada: muitas unidades falharam nos testes e outros sofreram problemas sérios pouco depois do lançamento. Dado que era a minha função enviar comandos para o Agena, olhei para o painel de controlo do rocket e confirmei a preocupação do Controlo da Missão.

“Rog, percebido”, transmiti a Tananarieve.

Ficámos depois fora do alcance da estação de controlo e liguei as luzes da cabina e anotei as horas. Eram 7:00 GET ou “Ground Elapsed Time”, o tempo decorrido desde o lançamento – o nosso ponto de referência para todas as fases da missão. Desviei o olhar do relógio e reparei que o “8-ball”, o instrumento que indicava a nossa orientação, mostrava que a nave estava declinada 30 graus.

“Ei, Neil, estamos numa inclinação”, disse-lhe e ele rodou os olhos para verificar o meu aparelho: estávamos ambos de acordo.

“Tens razão”, confirmou. “Estamos a rolar.” O movimento era tão lento que não sentíamos nada. Abaixo de um certo limite, o delicado mecanismo de equilíbrio do ouvido interno não é capaz de detectar qualquer movimento rotativo e não podíamos verificar a inclinação olhando para a janela, dado que, nessa altura, estávamos mergulhados numa escuridão total. Porém, sabíamos que deveríamos estar a navegar numa rota sem rotação ou flutuação. Algo não estava bem.

Logo após à mensagem do Controlo da Missão, ambos suspeitámos que a rotação estava a ser causada por um problema com o Agena. Então o Neil disse-me para desligar os seus indicadores de propulsores de atitude e assumiu o comando dos dois veículos unidos com o sistema de controlo do Gemini. À primeira vista, pareceu que estávamos certos, que o Agena estava a corresponder à sua má reputação. Enquanto os dois veículos estabilizavam, enviei outro comando para desactivar todos os programas no Agena. Mas foi então que começámos a rolar novamente.

“Não tinhas desactivado o Agena?”, perguntou o Neil, e eu confirmei-lhe que sim.

“Bem, volta a ligá-lo”, ordenou, e enviei imediatamente o contra-comando, código 401. Ainda assim continuámos a rolar. A situação estava claramente a ficar muito mais séria.

“Desliga-o outra vez”, disse-me Neil novamente e, mais uma vez, enviei o comando 400 que permitia controlar os dois veículos com o Gemini. A rotação parou de novo e começámos a verificar os nossos sistemas para avaliar o que correu mal. Apenas podíamos consultar o Controlo de Missão no final de dez minutos, até ficarmos sob o alcance da próxima estação de controlo, o navio Coastal Sentry Quebec, que estava ao largo da costa da China, no Pacífico ocidental. Continuámos a analisar os dispositivos quando a rotação começou uma vez mais. E Neil, de novo, ordenou que eu desligasse o Agena.

“Está desligado”, asseverei-lhe. “Mas vou enviar um 400 outra vez”.

Desta feita, não aconteceu nada. Olhámos um para o outro com crescente inquietação, e apercebemo-nos de que estava a gerar-se a velocidade da rotação. Por esta altura, já nos encontrávamos no período de dia e tínhamos agora confirmação visual dos dados apresentados pelos instrumentos. O que vimos foi alarmante. À volta do rebordo do Agena preso à nossa frente, podíamos ver a linha do horizonte da Terra a projectar-se como os ponteiros de um relógio gigante – céu escuro para um dos lados, e azul-escuro do nosso planeta para o outro lado. Os ponteiros estavam a rodar lentamente numa primeira fase, mas depois começaram a rodar mais rápido, como se as horas do relógio estivessem a ser acertadas.

Neil tentou lutar contra o movimento com o manípulo de controlo. Mas, por esta altura, estávamos a rodar em todos os três eixos: a rotação estava agora combinada com um movimento de cima para baixo, de lado a lado. Enquanto a nossa nave rolava, a Terra azul assomou para ocupar a vista das nossas janelas para, em seguida, dar lugar à escuridão, vezes sem conta. Era como estar a espreitar do interior de um enorme e intricado bastão prateado que fora arremessado para o espaço por uma majorette cósmica.

O movimento violento estava a exercer uma profunda tensão no colar de ancoragem que unia a Gemini e o Agena. Não tínhamos conhecimento sobre qualquer ocorrência do género, mesmo em simulação. Estávamos num incontrolável rodopio no espaço. E as perspectivas das coisas melhorarem não eram boas.

Tradução de Pedro M. Amaral

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

© Mill Books Editores 2009. Todos os direitos reservados.